Não bastasse o fato de ter-se tornado a primeira equipe a vencer uma corrida com um motor Ferrari que não a própria Ferrari, a Toro Rosso atingiu outra marca impressionante no GP da Itália. É a primeira equipe italiana, fora a Ferrari, a vencer em Monza em mais de 50 anos.
A última vez em que um carro italiano não-Ferrari venceu no lendário circuito foi em 1956, quando Stirling Moss chegou em primeiro com uma Maserati. De lá para cá, aconteceram outras 50 corridas em Monza, com 30 vitórias de carros britânicos (Benetton, Brabham, BRM, Cooper, Lotus, March, McLaren, Vanwall e Williams), 15 italianos (Ferrari), 3 franceses (Matra e Renault), 1 japonês (Honda) e 1 irlandês (Jordan).
Além disso, desde 1997 não se ouvia o hino italiano no pódio para uma equipe que não a Ferrari. A última ocorrência fora no GP da Alemanha de 1997, quando Gerhard Berger venceu com a Benetton.
Aliás, cabe aqui um esclarecimento. Nascida da britânica Toleman, a Benetton sempre competiu como originária da Grã-Bretanha, de 1986 a 1995. Apenas em 1996 ela transferiu seu registro para competir como italiana, embora sua fábrica ficasse em Enstone, na Inglaterra. Comprada pela Renault em 2000, converteu-se em um time francês.
Pela segunda vez no ano, o recorde de pódio mais jovem da história da Fórmula 1 foi quebrado. No GP da Alemanha, o pódio composto por Lewis Hamilton, Nelsinho Piquet e Felipe Massa teve a mais baixa média de idade da história, com 24 anos, 7 meses e 1 dia.
No GP da Itália, menos de dois meses depois, Sebastian Vettel, Heikki Kovalainen e Robert Kubica atingiram uma nova marca histórica, com média de 23 anos, 11 meses e 16dias.
Dos quatro pódios mais precoces da história, três aconteceram em 2008: Alemanha, Itália e Mônaco. O terceiro do ranking é o GP da Hungria de 2003.
Se em 2007 Lewis Hamilton assombrou o mundo com recordes de precocidade relacionados a performance em temporadas de estréia, agora é a vez de Sebastian Vettel, o super novato.
O alemão da Toro Rosso tornou-se, no ano passado, o piloto mais jovem a pontuar na Fórmula 1, marcando um ponto em sua prova de estréia, pela BMW, com 19 anos, 11 meses e 14 dias, quebrando o recorde de Jenson Button. Ontem, destronou Fernando Alonso como mais jovem pole position. E hoje, tornou-se o vencedor mais precoce da história da categoria, aos 21 anos, 2 meses e 11 dias. O recorde anterior também pertencia a Alonso, vencedor do GP da Hungria de 2003 aos 22 anos e 26 dias. De quebra, ainda assumiu a liderança do ranking de "subidores de pódio" mais jovens, ultrapassando novamente o espanhol.
Agora, Alonso detém apenas mais um recorde de juventude: o mais precoce campeão de todos os tempos, aos 24 anos, 1 mês e 27 dias. Vettel tem menos de três anos para superá-lo.
Vencedores mais jovens da história* 1º Sebastian Vettel (GP da Itália de 2008) - 21a 2m 11d 2º Fernando Alonso (GP da Hungria de 2003) - 22a 0m 26d 3º Bruce McLaren (GP dos EUA de 1959) - 22a 3m 12d 4º Lewis Hamilton (GP do Canadá de 2007) - 22a 5m 3d
* Sem considerar os vencedores de Indianápolis, de 1950 a 1960.
- Corrida história na Itália, como já se imaginava que poderia acontecer. Primeira corrida com chuva em Monza em quase 60 anos, disputas intensas na pista, vitória mais jovem de todos os tempos, primeira conquista de uma equipe que um dia foi a Minardi. Precisa mais?
- Sebastian Vettel foi surpreendentemente dominador. Liderou a corrida toda, perdeu a ponta apenas entre os pit stops e foi o melhor no encharcado, no molhado, no úmido e no seco. Quem diria que a Toro Rosso seria capaz?
- Imaginei que, na chuva, Vettel tivesse alguma chance de vitória, mas jamais pensei que pudesse ser dominador também no seco. Que Toro Rosso é essa?
- Todos os méritos do mundo para o alemãozinho da equipe B da Red Bull mas, convenhamos... Heikki Kovalainen não é de nada. Com a McLaren que tinha na mão, tinha a obrigação de, pelo menos, dar um calor em Vettel. Comboiou o adversário por toda a corrida, sem, em qualquer momento, ter dado pinta de que poderia vencer. Segundo colocado, chocho.
- O pódio foi completado por Robert Kubica que, mesmo sem brilhar, soube usar da estratégia para saltar do 11º para o terceiro lugar.
- Gerhard Berger, emocionado no pódio para receber o troféu de construtor vencedor, certamente viveu um flashback de 20 anos atrás, quando ouviu o "Fratelli d'Italia" diante dos tifosi em Monza, numa corrida histórica. O ponto alto de sua carreira como piloto repetiu-se, no mesmo lugar, como dirigente. Lindo momento.
- Depois de Vettel, o nome da corrida? Lewis Hamilton, sem dúvidas. Atacou a prova inteira, escalou os pelotões com vontade, realizou ultrapassagens magníficas e ganhou oito posições, como Kubica. Não tivesse parado a chuva, o obrigando a um pit stop extra para colocar pneus intermediários, poderia até ter vencido.
- Hamilton precisa, apenas, domar sua agressividade. Em alguns momentos, ousou de mais para um pretendente ao título. Precisava atacar, é lógico, mas se sujeitou a riscos em excesso em certas manobras. No final, contudo, evitou um ataque kamikaze a Felipe Massa e conformou-se com o sétimo lugar. Colocou a cabeça no lugar.
- Felipe não é nenhum sapo, a gente sabe. Mas sua corrida em Monza pode ser considerada boa, dentro de suas próprias possibilidades. Peitou Rosberg com uma linda ultrapassagem por sobre as zebras, fora de suas características em piso molhado. Com uma cautela até excessiva, a Ferrari pediu que devolvesse a posição, a fim de evitar uma punição que, creio eu, não aconteceria.
- O brasileiro sai de Monza a apenas um ponto de Lewis Hamilton, num campeonato totalmente aberto. No entanto, perdeu uma grande oportunidade de assumir a liderança.
- Agora... a corrida de Felipe pode ser vista de forma diferente se considerarmos o que fez Kimi Raikkonen. Há duas leituras possíveis. Felipe foi excepcional, se entendermos que Kimi, com o mesmo carro, lutou o tempo inteiro sem conseguir passar do nono lugar. Ou então Felipe fez o que estava dentro das capacidades da Ferrari e o finlandês correu com o interruptor desligado. Qual a sua leitura?
- Fernando Alonso e Nick Heidfeld, fazendo o melhor uso da estratégia de uma parada ao colocar diretamente os pneus intermediários, intrometeram-se entre os primeiros. O quarto lugar do espanhol é seu melhor resultado no ano, enquanto Nick foi osso duro para Felipe Massa na briga pela quinta posição. Não se deixou ultrapassar e o brasileiro preferiu não mais arriscar nas voltas finais.
- A Honda anda tão mal que, nem mesmo nas condições preferidas, Rubens Barrichello consegue fazer uma boa prova. Andou lá atrás o tempo todo e chegou apenas em 17º, entre 19 que terminaram a corrida.
- Nelsinho Piquet fez um dos stints mais longo do GP, reabastecendo apenas na 35ª volta. Ganhou sete posições, mas chegou apenas em 10º. Insuficiente para marcar pontos e bem atrás de seu companheiro Alonso, quarto.
- Corrida com apenas um abandono, de Giancarlo Fisichella, que se estranhou com David Coulthard. O escocês, por sinal, também dividiu perigosamente a parabólica com Kazuki Nakajima. Impressionante o quanto Coulthard, tido e visto como cauteloso em excesso em seus tempos de McLaren, virou uma ameaça aos demais pilotos em seus últimos anos na Fórmula 1. A média é de quase um incidente por prova.
- Gosto amargo para Sebastien Bourdais. Saía em quarto lugar, tinha tudo para fazer uma dobradinha histórica no pódio com seu companheiro Vettel, mas viu seu sonho ruir quando o carro não conseguiu arrancar para a volta de apresentação. Perdeu uma volta e andou a prova toda na rabeira, tendo condições para fazer bem mais que isso. Chegou em penúltimo, à frente apenas da Force India de Sutil. Ameaçado de aposentadoria precoce, o francês merecia melhor sorte.
- Campeonato: Hamilton 78, Massa 77, Kubica 64, Raikkonen 57. Com 40 pontos em jogo, 21 atrás do líder, o finlandês é carta fora do baralho. Tudo bem que no ano passado ele descontou 17 pontos em 20 na reta final, mas todos sabemos que foi uma situação excepcional. Não acontecerá novamente. Lewis e Felipe brigarão, ponto a ponto, até o GP do Brasil.
- Favorito? Não há. O inglês se mostra um piloto mais completo que o brasileiro, mas exagera na dose muitas vezes e assume riscos desnecessários. Deve ter aprendido com as lições do ano passado, mas dá mostra que o instinto fala mais alto muitas vezes. Felipe pode não ter o mesmo talento natural de Lewis, mas parece viver um momento psicológico único na carreira, estando pronto para o campeonato. Será uma briga fantástica.
- Nos construtores, a McLaren encostou ainda mais na Ferrari: 134 x 129.
- Daqui a duas semanas, Cingapura. Corrida noturna, na rua, mais uma incógnita nesta imprevisível temporada 2008. Campeonato muito divertido, cheio de atrativos e novidades.
- Choveu torrencialmente pela primeira vez desde que o novo formato de classificação foi implantado, em 2006, provocando um treino completamente diferente do padrão. O resultado? Pole position de Sebastian Vettel, o mais jovem pole da história da Fórmula 1.
- Desde a metade do campeonato a Toro Rosso vem dando fortes sinais de crescimento e a pole, apesar de conquistada obviamente por causa da chuva, não foi assim tão fortuita. O carro vem bem e Vettel é impressionantemente rápido.
- Acredito que a Toro aproveitou o momento para fazer graça, por isso imagino pouco combustível nos dois carros. Sebastien Bourdais sai em quarto, excelente resultado.
- O segundo lugar ficou com Heikki Kovalainen, o único carro de ponta a ficar entre os cinco primeiros. A McLaren, quem diria, virou intrusa na primeira fila.
- Mark Webber, sempre bem nas classificações e na chuva, sai em terceiro. São três carros das equipes Red Bull entre os quatro primeiros. Quem ficou de fora? David Coulthard, claro, apenas 13º colocado. Segundo rumores, pode ser sua última largada na F1.
- E cadê os ponteiros, você deve se perguntar? Hamilton, Raikkonen, Massa? Foram engolidos por uma chuva forte quando faziam suas voltas rápidas. Mas tem um pouco mais a ser contado.
- Durante o Q1, não houve tantas surpresas, ficando de fora os mesmos de sempre (Barrichello, Piquet, Nakajima, Button e Sutil). Mas no Q2, a chuva forte que caiu depois de cinco minutos embaralhou completamente o grid. Felipe Massa, Lewis Hamilton e Kimi Raikkonen ainda não tinham feito boas voltas e foram praticamente condenados a ficarem de fora da parte final do treino. Felipe, porém, foi o único a fazer uma grande volta sob condições ruins e conseguiu, quase que por milagre, a décima posição, o levando para a superpole. Fantástico.
- Raikkonen vai sair apenas em 14º. Hamilton, em 15º. A decepção no rosto dos mecânicos da McLaren era evidente. Principalmente pelo fato de Felipe ter conseguido passar de fase em condições tão difíceis.
- Mas Felipe, porém, não fez nenhuma grande volta na fase final da classificação e sairá apenas em sexto. Seria um resultado ruim, mas considerando a posição de largada dos rivais, tem sabor de pole position.
- O brasileiro pode estar mais pesado, com uma estratégia de apenas um pit stop, já que a previsão para amanhã é de chuva.
- E, justamente pelo fato da previsão ser de chuva, não dá para descartar Hamilton e Raikkonen na corrida. Saem em posições ruins, é verdade, mas ambos têm talento e carro para escalarem o grid rapidamente. Monza permite ultrapassagens e, se Felipe largar mal, não duvido que já esteja no mano a mano com os dois principais adversários na segunda ou terceira volta.
- O brasileiro tem grande vantagem pela posição de largada, mas precisa confirmá-la. Principalmente na chuva, condição à qual, todos sabemos, ele não é muito afeito.
- Outros destaques do treino: Nico Rosberg, quinto com a Williams, e Giancarlo Fisichella, 12º com a Force India. É a melhor posição de largada da jovem equipe indiana.
- Palpites para amanhã? Apenas que a prova deve ser completamente maluca, cheia de ultrapassagens e acidentes. Não arrisco um vencedor. Pode dar de Boudais a Hamilton. Tudo é possível.
- Curiosidade: chuva como a de hoje nunca se viu num GP da Itália. Em 1981 caíram algumas gotas, a pista começou úmida em 2006, mas chuva torrencial, jamais. Em quase 60 anos, podemos ter o primeiro GP realmente molhado em Monza. A prova tem tudo para ser histórica.
A improvável pole position de Sebastian Vettel hoje em Monza, com uma Toro Rosso, fez dele o mais jovem piloto a largar em primeiro lugar na Fórmula 1, em toda a história.
O recorde anterior pertencia a Fernando Alonso, pole no GP da Malásia de 2003 com 21 anos, 7 meses e 22 dias. Vettel atinge tal feito com apenas 21 anos, 2 meses e 10 dias.
O resultado de Vettel também tem outro significado importante. É a primeira pole position de um piloto alemão desde a aposentadoria de Michael Schumacher.
Robert Kubica sente-se à vontade em Monza. Não por acaso, é o circuito no qual conquistou seu primeiro pódio, em 2006, apenas em sua terceira corrida na Fórmula 1.
Para lembrar o feito, o polonês preparou um capacete especial para o GP da Itália, incorporando à sua pintura as cores da bandeira italiana.
A Ferrari anunciou hoje a extensão do contrato de Kimi Raikkonen até 2010. Ou seja, por mais duas temporadas, teremos Kimi e Felipe nos carrinhos vermelhos.
O significado mais forte do anúncio? O de que as portas de Maranello estão fechadas para Fernando Alonso. Preterido pela Ferrari e sem a mínima possibilidade de retornar à McLaren, resta ao espanhol tentar uma mudança para a BMW, sob a pena de só voltar a encontrar um carro competitivo a partir de 2011. Se é que ainda terá paciência para continuar na F1 até lá.
Uma pena. Alonso é de um talento único, mas se movimenta muito mal nos bastidores. Seu arranca-rabo com a McLaren em 2007 prejudicou seriamente o andamento de sua carreira.
O Bruno Mantovani, habilidoso desenhista que publica aqui no blog suas charges, além de ter criado o Capellino que abre este blog, está presente em Monza neste final de semana. Não pessoalmente, mas com seu trabalho, que deu as caras por lá hoje, numa faixa preparada por fãs de Kimi Raikkonen e Sebastian Vettel.
Este é o espaço no qual Ivan Capelli fala sobre automobilismo e alguns pormenores do cotidiano, com seu ponto-de-vista bastante particular. Além disso, toda terça-feira, uma charge sobre automobilismo.
Jornalista, 30 anos, um chato que dá pitaco em quase tudo sobre automobilismo. Além de manter este blog, Capelli colabora com o site Grande Prêmio, escreve uma coluna mensal no GP Total e co-produz e co-apresenta o podcast Rádio GP.