O leitor Baron von Glöwer fez uma excelente análise do vídeo postado abaixo, com a qual concordo em muitos pontos. Vale uma lida.
"O motor do carro não morreu em momento nenhum, o problema foi do câmbio apenas. O problema aconteceu exatamente na hora que Hamilton com a mão esquerda aciona a borboleta pra diminuir as marchas (mais exatamente para 3ª marcha, pois a curva da descida é feita em 3ª ou 4ª, e as McLarens faziam em 3ª), e nesse momento, ao primeiro toque na borboleta pelo Hamilton, a marcha muda de 7ª para Neutro (deu pane no sistema que controla o cambio eletronicamente). Ele corretamente aciona o botão Neutro (pra reiniciar o software do cambio que travou do nada), começa a dar toques no acelerador (motor não morreu podem ver), e fica tentando aumentar as marchas e diminuir pra tentar ver se as marchas voltam (pelo barulho da pra notar que as marchas entram e voltam pro neutro, confirmando que o software tá dando boot e ele tem que esperar).
Daí logo após ele aciona o Botão de limitador de velocidade de pitlane (na Direita do volante, e aciona isso super rapido que quase nem se percebe), aí aciona o botão do Radio pra falar com o engenheiro, e agora faz a cagada de apertar o botão do neutro pela 2ª vez no desespero (essa que foi a burrada que ele fez, apertar o neutro pela 2ª vez, e achei que foi um erro levado mais pelo desespero da situação, do que pela propria falta de treinamento, pois ele deveria ter esperarado o sistema voltar). Já sabemos o que estava em risco e na cabeça dele deve ter passado torcentas mil coisas e muito mais. Ele foi afobado ao apertar pela 2ª vez o neutro, e isso custou o título.
Tenho uma leve idéia de como o sistema de boot do software funciona. Se ele apertou o neutro pela 2º vez, sendo que o sistema estava reiniciando por causa da primeira apertada, o software iria ficar online e as marchas voltariam, mas logo após ficar online, ocorreu o 2º boot que estava programado pelo segundo apertão. Se ele tivesse tido paciência, após chegar ao pinheirinho o carro voltaria a funcionar normal. Mas a afobação fez com que levesse duas vezes mais o tempo de que levaria normalmente.
O carro pode ter dado o problema, mas o titulo foi perdido pelo erro dele mesmo."
Passados quase dois meses da decisão da temporada de 2007 da Fórmula 1, em Interlagos, finalmente um enigma se vê revelado. Lewis Hamilton, apontado por todos como responsável pelo travamento de seu câmbio em Neutro durante o GP do Brasil, não teve culpa nenhuma no incidente que lhe fez perder o título mundial. O que se acreditava é que Lewis teria acionado por engano o botão “neutral” de seu volante, deixando sua McLaren em ponto-morto. Mas um vídeo, tornado público nesta semana, inocenta o jovem inglês.
As imagens estão no DVD “Kimi Made it At Last!”, vídeo oficial da FIA que narra a história do campeonato 2007, lançado na Europa na última terça-feira. O Blog do Capelli teve acesso ao documentário no qual, durante o capítulo do GP do Brasil, é exibida uma imagem até então inédita do incidente. Filmada pela câmera on-board de Hamilton, ela possui áudio ambiente e dados de telemetria sincronizados na tela.
A seqüência é muito clara: Lewis passa pela reta oposta, faz a aproximação para a Curva do Lago, toca com os dedos da mão esquerda a borboleta de câmbio para fazer a redução de marchas e, neste momento, o motor de seu carro pára. Dois segundos depois, já sobre a zebra, o piloto aciona com o polegar esquerdo o botão neutro, numa tentativa de reprogramar o sistema de câmbio.
Até então, a imagem que se tinha da câmera da McLaren não possuía áudio ambiente sincronizado, o que levava a crer que fora o acionamento do botão que teria causado a pane. Agora, com áudio e telemetria, o caso fica esclarecido.
Rafael Lopes e Fábio Seixas mataram a cobra e mostraram o pau. Lewis Hamilton apertou mesmo o botão errado do volante e a câmera on-board comprova. Reproduzo aqui a informação que eles puseram em seus blogs.
Veja abaixo uma imagem do volante da McLaren.
Repare no botão verde, no alto à esquerda, com um "N" dentro. Aquele é o botão de neutro, que deixa o carro em ponto morto. Reparou? Agora veja o vídeo abaixo.
Na tomada da curva, antes de começar a jogar as marchas para cima (com a mão direita), ele pressiona o botão que não devia com o polegar esquerdo.
É uma pena que a imagem não venha acompanhada do áudio do motor, mas a sensação é de que o carro perde velocidade justamente após o clique no botão. Depois, Hamilton é ultrapassado e pressiona o botão mais uma vez, na tentativa de reiniciar o sistema. Mas aí, o estrago já estava feito.
Este outro vídeo, mais didático (e sacana), detalha o acontecimento.
Foi versão pra cá, desmentido pra lá... mas finalmente a verdade veio à tona. Lewis Hamilton, de fato, errou e colocou o carro em neutro em Interlagos. Nas palavras do próprio, para o jornal francês "La Presse":
"Meu dedo resvalou de forma acidental e pressionei o botão que reinicia o sistema. Assim, o carro ficou em ponto morto e tive de reiniciar o software que controla a caixa de câmbio."
Durante a Rádio GP de ontem, Flavio Gomes já tinha feito o esclarecimento das diferentes versões. Assim que desceu do carro, Lewis admitiu o erro a jornalistas ingleses. O próprio Flavio estava próximo e acompanhou. Logo depois, oficialmente, a assessoria da McLaren divulgou a informação de "problema eletrônico desconhecido". Mas era mesmo um acobertamento. Hoje, veio a confirmação.
Ah sim, não falei aqui sobre o recurso da McLaren ao resultado do GP do Brasil. Claro, tentar é sempre necessário, a equipe deve satisfações a seus acionistas e patrocinadores. Mas Ron Dennis sabe que o título não virá no tapetão.
O ironia suprema do julgamento do recurso seria a aplicação de uma multa a Williams e BMW. Não foi a McLaren a maior beneficiada da conversão de penas esportivas em multas em 2007? Que o feitiço volte-se contra o feiticeiro.
O título mundial de Kimi Raikkonen em 2007 não foi histórico apenas pela virada sensacional que representou. O finlandês fez história também na Ferrari, igualando um feito até então exclusivo a Juan Manuel Fangio e Jody Scheckter. Somente eles tinham, até hoje, sido campeões em seu ano de estréia pela equipe italiana.
Fangio disputou apenas uma temporada pela Ferrari, em 1956, depois de sagrar-se tricampeão pela Mercedes no ano anterior. Com o trágico acidente de Le Mans, em 1955, os alemães se retiraram do automobilismo de competição e o argentino mudou-se para a equipe italiana. A passagem foi curta, mas Fangio venceu três corridas em dez e sagrou-se tetracampeão. No ano seguinte, retornou à Maserati para conquistar seu quinto título mundial.
Jody Scheckter ingressou na Ferrari em 1979, para fazer companhia à promessa Gilles Villeneuve. O sul-africano vinha de boas temporadas na Tyrrell e na Wolf e já tinha deixado de lado a fama de batedor inconseqüente. Começou a temporada obscurecido por Villeneuve mas, tal qual ocorreu com Kimi e Massa este ano, reagiu a partir da sexta corrida e arrancou para o título mundial. Jody permaneceu por mais uma temporada na Ferrari, mas o carro era tão ruim que fez com que passasse a questionar a necessidade de continuar correndo. Para se ter uma idéia, 1980 foi a única temporada da história em que nenhuma Ferrari subiu ao pódio em nenhuma corrida. Ao final do ano, decidiu se aposentar.
Um erro de tradução causou toda a confusão ontem. Cheguei a alterar os posts feitos logo depois da corrida, depois que obtive a informação de que Lewis Hamilton havia errado e colocado o carro em ponto morto ontem. Ledo engano.
Lewis não disse isso, tampouco a McLaren. O carro do inglês entrou em ponto morto na descida do lago por um problema eletrônico. Desta besteira, o garoto não pode ser culpado.
Assim, reparando os erros de avaliação, reverti os posts às versões anteriores. Melhor assim do que fingir que nada aconteceu e seguir propagando uma inverdade.
A decisão tomada hoje pela FIA, de não desclassificar os pilotos da Williams e da BMW por irregularidades no combustível, não pode ser chamada de incoerente. Caso semelhante já havia ocorrido, também no GP do Brasil, em 1995.
Naquela ocasião, Michael Schumacher havia vencido a prova, com David Coulthard em segundo e Gerhard Berger em terceiro. Os dois primeiros, de Benetton e Williams, utilizavam o mesmo combustível, da francesa Elf. Comissários da prova detectaram que a composição da gasolina extraída dos tanques diferia daquela que tinha sido enviada para homologação antes da corrida.
No final da tarde, os dois pilotos foram desclassificados e a vitória foi atribuída a Gerhard Berger, que chegou a comemorar com champanhe nos boxes, com certo constrangimento. Dias depois, a FIA analisou os recursos da Williams e da Benetton e devolveu a vitória a Schumacher e o segundo posto para Coulthard. As equipes apenas não puderam somar estes pontos no mundial de construtores.
Julgo que a decisão de hoje foi acertada. Regra é regra, mas precisa ser avaliada dentro de contexto. Não fosse assim, juízes não seriam necessários: pegaria-se a lei e aplicaria-se a pena. Dentre todas as subjetividades presentes na aplicação de uma pena, destaca-se a avaliação de tamanho do crime x tamanho da pena.
Os pilotos deveriam ser desclassificados caso os comissários tivessem entendido que houve benefício com a irregularidade. Mas não foi o que ocorreu. Ficou entendido que a diferença de temperatura não influiu no resultado da corrida e que não havia certeza quanto ao processo de medição. Duas empresas diferentes avaliaram as amostras e os resultados foram bem distintos. Sem certeza do crime e sem ganho comprovado, sem punição. Bastante simples e correto.
O comunicado oficial da FIA saiu agora há pouco, confirmando o título de Kimi Raikkonen. Nick Heidfeld, Nico Rosberg e Robert Kubica não serão desclassificados.
Os comissários entenderam que a diferença de temperatura não influiu no comportamento dos carros e que não havia garantia quanto ao resultados das análises. Duas empresas diferentes chegaram a temperaturas bem diferentes.
Melhor assim. E que as polêmicas de 2007 tenham, finalmente, se encerrado.
Não é oficial, mas é o rumor que corre no paddock de Interlagos. Já foi noticiado na RAI, na Sky News britânica e Ico publicou em seu blog:
"O resultado da corrida será oficializado, sem penas para BMW e Williams. Alguém deve ter ligado para o Bernie, que resolveu impedir mais danos à imagem da categoria".
Mais uma polêmica chata para encerrar uma temporada infeliz.
Atualização: a agência Reuters confirma a informação. Já virou até capa do Yahoo! Sports. A Rádio Marca, da Espanha, informa que a decisão final de não-punição já foi tomada e que o parecer oficial está sendo redigido. Segundo os espanhóis, ainformação foi confirmada extra-oficialmente por Antonio Vasconcelos, comissário que participou da análise do caso. A conferir.
Segundo informações da BBC News, os carros de Nick Heidfeld, Robert Kubica e Nico Rosberg estavam mesmo ilegais. A temperatura do combustível nos tanques estava fora do especificado em regulamento.
O imbróglio, porém, diz respeito à punição. O regulamento é omisso e não prevê o tipo de punição para um caso como este. O campeonato de 2007 está nas mãos dos comissários. Se os três forem desclassificados ou tiverem acréscimo no tempo final de corrida, o título cai no colo de Lewis Hamilton.
"A FIA, em comunicado, acaba de informar que representantes da Williams e da BMW foram convocados para explicações na sala dos comissários do GP do Brasil "imediatamente".
O informe, assinado por Tony Scott Andrews, Antonio Vasconcelos e Élcio de São Thiago, foi expedido às 18h e já recebido por membros das duas equipes. A BMW tomou ciência do chamado sete minutos depois; o da Williams, meia hora.
O Grande Prêmio apurou que, em relação à BMW, há algo que envolve a gasolina utilizada no GP. Se houver uma punição às equipes, como desclassificação ou acréscimo de tempo, Lewis Hamilton pode subir para a quinta posição no resultado final e, então, tirar o título de Kimi Raikkonen."
Para o bem do esporte, que nada aconteça. Hamilton ganhar duas posições e o título no tapetão seria o pior final possível para uma temporada tão controversa.
Em 1971, o atacante Paulo Cezar Caju, do Botafogo, posou para a revista Placar ostentando uma faixa de campeão carioca daquele ano, algumas semanas antes do campeonato acabar. O objetivo não era desmerecer os adversários ou fazer qualquer provocação, mas sim antecipar o fechamento da edição da revista. O pedido tinha sido feito pela própria redação de Placar. Àquela altura, o alvinegro tinha quatro pontos de vantagem faltando apenas quatro rodadas para o final, isso num tempo em que cada vitória valia apenas dois pontos. O título era mesmo questão de tempo, mas o aceite de Caju passou a impressão de comemoração antecipada.
Três rodadas depois, o Botafogo não mais conseguiu vencer e precisou decidir o título na última rodada, num clássico contra o Fluminense. O improvável aconteceu, o tricolor venceu e levou o campeonato. Caju saiu de campo derrotado, marcado pelo episódio e acabou dispensado pelo time da estrela solitária. Desde então, nunca mais aceitou qualquer proposta do gênero.
Corte para 36 anos depois. A imprensa inglesa, histérica e deslumbrada com o desempenho de seu garoto-prodígio Lewis Hamilton no mundial de Fórmula 1, prepara uma biografia do rapaz. O autor é Frank Worrall e o livro recebe o exagerado título de "Lewis Hamilton - O Rei do Mundo". A obra é posta em pré-venda na maior livraria virtual do mundo, a Amazon.com, dois meses antes do final do campeonato. E sua sinopse garante que o livro conta a trajetória de Hamilton até o título mundial, obtido no GP do Japão. Um caso típico de ejaculação precoce.
O resultado foi visto hoje. Um amargo vice-campeonato em Interlagos e agora editores e autor devem estar com uma enorme cara de tacho. O livro até já mudou. Agora chama-se "Lewis Hamilton - a Biografia" e seu resumo fala apenas de um bom ano de estréia, repleto de pódios e vitórias.
Moral da história: cantar vitória antes da hora faz mal para o esportista. E olha que, em ambos os casos, nenhum dos dois teve total responsabilidade. A mancada partiu foi da imprensa mesmo.
O triunfo de Kimi Raikkonen hoje em Interlagos representou a vitória do espírito de equipe sobre a vaidade. Enquanto a Ferrari manteve-se unida, mesmo nos piores momentos, quando descobriu que havia um espião em seu seio; a McLaren se perdia em brigas de beleza e com o destempero de suas estrelas.
Fernando Alonso não aceitou ser tratado de maneira igual a um novato dentro da equipe. Brigou lá dentro, escancarou as feridas quando botou a boca no mundo. Ron Dennis não agüentou a insubordinação de seu piloto e tomou as dores de Lewis Hamilton, rachando o time. O inglesinho não aceitou o breve momento em que Alonso parecia ter vencido a briga política dentro da McLaren e tudo explodiu na classificação para o GP da Hungria, quando Dennis lhe pediu que desse passagem para que o espanhol queimasse mais combustível e ouviu como resposta um sonoro "Fuck you, fuck you".
Alonso deu o troco na hora, segurando o companheiro no box. Quando ouvia bronca do patrão, fez chantagem ameaçando contar o que sabia sobre o caso de espionagem e a partir daí a equipe desmoronou. Não por acaso, dali para a frente a McLaren venceu apenas mais duas corridas, em seis.
Felipe Massa, hoje, sacrificou-se em nome do time. Visivelmente, não estava satisfeito com o resultado, mas tinha a consciência de que, muitas vezes, é preciso fazer prevalecer o interesse coletivo sobre o individual. Mesmo num ambiente tão feroz e competitivo como a Fórmula 1, ninguém vence sozinho. E se Hamilton estivesse em sexto hoje, na última volta, podendo ser campeão caso Alonso encostasse seu carro? O espanhol faria este sacrifício? É claro que não.
A McLaren lambe as feridas e termina o ano de 2007 completamente esfacelada. Ron Dennis, Norbert Haug, Fernando Alonso e Lewis Hamilton terão muito o que pensar durante as férias.
Este é o espaço no qual Ivan Capelli fala sobre automobilismo e alguns pormenores do cotidiano, com seu ponto-de-vista bastante particular. Além disso, toda terça-feira, uma charge sobre automobilismo.
Jornalista, 30 anos, um chato que dá pitaco em quase tudo sobre automobilismo. Além de manter este blog, Capelli colabora com o site Grande Prêmio, escreve uma coluna mensal no GP Total e co-produz e co-apresenta o podcast Rádio GP.