 A Fórmula 1 utiliza a regra do Safety Car há 15 anos, desde 1993. De lá até 2006, sua intervenção na corrida era simples. Em caso de acidente, todos os pilotos alinhavam atrás do carro de segurança, paravam nos boxes quando quisessem (se necessário) e relargavam após seu retorno ao pit lane. Um pouco de sorte envolvia a operação, muitos ganharam e outros tantos perderam corridas assim, mas durante todo o período, em nenhum momento alguém levou vantagem indevida.
No ano passado, porém, a FIA implementou uma nova norma. Visando evitar que os carros continuassem acelerando para chegar aos boxes para fazer um rápido pit stop antes que encontrassem o Safety Car, o que de fato é contrário ao espírito da regra, decidiu-se fechar os boxes assim que a corrida é paralisada com bandeira amarela. Todos os pilotos precisam alinhar atrás do carro-madrinha e só então os pits são abertos para que todos entrem e façam seus pit stops ao mesmo tempo. Os infratores que reabastecerem seus carros durante o período de box fechado são punidos com um stop & go de 10 segundos.
Desta maneira, a regulamentação acabou com a vantagem que alguns pilotos poderiam conquistar na regra antiga, parando nos boxes antes de todos e voltando à frente. Certo? Errado. É um jogo arriscado, mas é possível infringir a regra, reabastecer durante o período de proibição e ganhar posições. Levantei esta hipótese pela primeira vez na Rádio GP da corrida do Canadá do ano passado. Ontem, em Cingapura, Nico Rosberg e a Williams comprovaram a tese.
Vamos aos fatos. Nico era o 9º colocado no GP de Cingapura até a 15ª volta, quando o Safety Car foi acionado. O piloto da Williams quebrou a regra de box fechado e realizou seu primeiro pit stop antes de todo mundo, voltando à pista no meio do pelotão, em décimo lugar. Quando os boxes foram abertos e os demais realizaram seus pit stops, voilà. Rosberg assumiu a liderança. Robert Kubica tomou a mesma atitude, mas não logrou o mesmo sucesso. Jarno Trulli e Giancarlo Fisichella não pararam e o polonês ficou apenas em quarto.
Obviamente, a Williams informou que o piloto tinha pouco combustível e por isso foi obrigado a parar. É claro que a equipe jamais admitiria formalmente que quebrou a regra de propósito. Mas os tempos de Rosberg no treino de classificação não indicam que ele tivesse largado assim tão leve. Comparando os tempos de classificação do alemão no Q2 (pouco combustível) e no Q3 (tanque cheio), ele perdeu 2.2s. Pilotos que largaram mais leves, como Felipe Massa, perderam menos de 1s, e ainda resistiram a mais duas voltas na pista. Kubica, que também estava "sem gasolina", perdeu 1.2s. Ou seja, tudo aponta para que Nico ainda tivesse combustível no tanque. Seu pit stop dificilmente foi de emergência.
A Williams arriscou e se deu muito bem. Líder na relargada e com pista livre à sua frente, beneficiado ainda pela lentidão dos pesados Trulli e Fisichella atrás de si, Rosberg pôde abrir uma grande diferença antes de cumprir a anunciada punição de sopt & go por 10 segundos. Depois da parada forçada nos boxes, retornou à pista em terceiro lugar.
Para se ter uma idéia, quem estava imediatamente à frente do alemão da Williams antes da entrada do Safety Car, Nick Heidfeld, a esta altura era nono. Na melhor das hipóteses, caso tivesse feito uma parada dentro do período permitido, Nico estaria por ali. Não há dúvidas de que houve vantagem.
Embora não goste da idéia de carros fazendo pit stop todos juntos, entregando posições para aqueles que não pararam ou que, por sorte, pararam antes (caso de Alonso), não acho que este seja o problema central da regra. A grande questão está na aplicação da pena por infração. A punição precisa ser rigorosa o suficiente para impedir que alguém tente burlar a regra, não é admissível que uma equipe possa ser permitida a arriscar uma ilegalidade sabendo que, mesmo pagando uma pena, levará vantagem.
Então, que altere-se o tamanho da punição. Em vez de 10s, que o piloto fique 20 ou 30s retido nos boxes, ou que só seja permitido retornar à pista ao final do pelotão, em último lugar. Do modo como a regra está, ser infrator pode ser bom negócio. Nico Rosberg, segundo colocado em Marina Bay, que o diga.Etiquetas: Análises, GP de Cingapura, Nico Rosberg, Regulamento, Williams  |